Soluções para a crise do transporte público no Brasil: a quem queremos enganar?
O transporte público brasileiro já conhece seus problemas e também suas soluções. O desafio deixou de ser técnico. Tornou-se político. Sem força para transformar esse consenso em prioridade nas cidades, o setor continuará discutindo financiamento, tecnologia e gestão, enquanto o principal permanece intocado: a falta de prioridade ao transporte coletivo no espaço urbano.
Há décadas repetimos que o transporte público brasileiro vive uma crise. Produzimos estudos, realizamos seminários, elaboramos planos, incorporamos tecnologias. Mudam os governos, mudam os programas. A crise permanece.
Não falta diagnóstico. Conhecemos os efeitos da perda de passageiros, da expansão urbana desordenada, da queda da velocidade comercial dos ônibus, do congestionamento, da dependência excessiva da tarifa e da ausência de prioridade ao transporte coletivo. Mesmo assim, continuamos discutindo o problema como se ainda procurássemos suas causas.
Talvez porque seja mais confortável tratar a crise como se ela tivesse nascido dentro do ônibus.
Falamos em renovação de frota, ar-condicionado, bilhetagem digital, aplicativos e inteligência artificial. Tudo isso é necessário. Mas um ônibus moderno continuará prestando um serviço ruim se permanecer preso no congestionamento. E o congestionamento não foi criado pelo ônibus.
Há uma contradição evidente em exigir produtividade do transporte coletivo enquanto lhe negamos prioridade nas ruas. Queremos reduzir custos, mas aceitamos a perda de velocidade. Queremos recuperar passageiros, mas preservamos um modelo urbano que, durante décadas, privilegiou o transporte individual.
Depois nos perguntamos por que o ônibus perdeu competitividade.
A quem queremos enganar?
A discussão sobre financiamento ilustra bem essa inversão de prioridades. O setor já reconhece que a tarifa, sozinha, não sustenta o transporte público, e tampouco faltam propostas para diversificar suas fontes de custeio. O Marco Legal consolidou instrumentos importantes nessa direção, embora parte deles tenha sido vetada. Mas permanece uma pergunta anterior a todas as demais: financiar o quê? Um sistema que continua perdendo velocidade, eficiência e passageiros porque as cidades se recusam a lhe dar prioridade? Resolver a equação financeira sem enfrentar a disputa pelo espaço urbano pode significar apenas tornar sustentável um serviço cada vez menos competitivo. Seria oferecer o remédio certo para a doença errada.
Também o setor precisa fazer sua autocrítica. Produz conhecimento, acumula estudos, formula propostas consistentes e conhece, talvez como poucos, as transformações necessárias. Mas ainda não conseguiu converter esse patrimônio técnico em força política. Falta capacidade de mobilização, de articulação institucional e de convencimento da sociedade de que defender o transporte público não é defender um setor econômico, mas uma política essencial para o funcionamento das cidades.
Enquanto essa força não existir, continuaremos assistindo ao paradoxo de um setor que conhece as soluções, mas não consegue fazê-las prevalecer.
A crise é também uma crise do Estado, de sua capacidade de planejar redes, definir prioridades, integrar políticas urbanas e fazer escolhas. Tecnologia, inteligência artificial e análise de dados ampliarão enormemente a capacidade de gestão, mas nenhuma inovação substituirá a decisão fundamental sobre que cidade queremos construir.
O automóvel continuará ocupando a maior parte do espaço urbano ou o transporte coletivo passará a receber a prioridade compatível com sua função social?
Planejar mobilidade é escolher.
E talvez seja justamente essa a escolha que continuamos adiando.
Depois de décadas de diagnósticos, estudos e propostas, a pergunta talvez já não seja como salvar o transporte público brasileiro.
A pergunta é outra:
quando o setor conseguirá reunir força política suficiente para transformar soluções conhecidas em prioridades efetivas das cidades?
Enquanto essa resposta não vier, continuaremos debatendo a crise.
E talvez continuemos, também, enganando a nós mesmos.
Alexandre Pelegi